Refletindo na desordem.
Não sei quem sou e talvez ninguém saiba. Só sei que muitos enxergam em mim estereótipos e apenas poucos conseguem ver o verdadeiro “eu” que nem a mim foi apresentado. Não sei quem sou, talvez por miopia ou falta de inércia: Subjetividade causa cegueira e mudanças constantes impedem o conhecimento, até mesmo o autoconhecimento; o “eu” de anos atrás não é o mesmo de hoje, seja no externo ou interno. Apenas parte de sua essência se manteve intacta.Não conservo regras, preservo interpretações. Não existem destinos estagnados, a vida é um rio que muitas vezes muda de curso. Nessa longa trajetória existem os desvios (escolhas), as pedras (erros e imprevistos), os atalhos (experiências, amigos, amores), mas não existe fim (Essência não se perde: Ainda que na memória alheia, ela é perpetuada). Só sei para onde vou quando já cheguei. Se soubesse pra que vim, a vida não teria graça: Seria aquela coisa chata, programada, estática.
A arte de viver é poder malear circunstâncias em situações favoráveis. Caso não seja possível, que se aprenda com isso para não ser pego desprevenido mais uma vez. Evolução acontece perante adversidades. Já desejei castelos e príncipes, magia e destaque. Hoje almejo apenas ser eu, não me vender à vida. Busco por um futuro que traga a felicidade. Quanto ao resto, não cabe a mim desejar, é necessário conquistar. Aquele que só vive de sonhos nunca acordou para vencer uma batalha.
Aprendi a escutar mais que falar, a equilibrar autenticidade e discrição e a não enxergar os outros como um espelho meu; fortes e fracos são variáveis em cada um. Percebi que não existem só coisas boas: O ser humano pode ser mais cruel em apenas um segundo do que amoroso em uma vida inteira. Egoísmo e inveja vão existir sempre, cabe a nós compreender a precariedade alheia para que um dia as nossas sejam igualmente compreendidas. Já pedi desculpas sem nunca ter aprendido a perdoar e esquecer de verdade. Quis que não me julgassem quando eu mesma já fui severa em pressupostos. Fui ensinada a buscar com esforço o conhecimento quando sempre não saberei de nada; a verdade é impalpável. Mesmo sabendo que não dava para agradar a todos, sempre tentei; orgulho e até uma pitada de otimismo nunca me deixaram acreditar plenamente nessa negação universal.
Todos têm direito a opinião, mesmo que seja desfavorável a nós. Só hoje consigo aceitar que, dos muitos que conheci, muito poucos sentirão sinceramente a minha falta e só isso já me basta. Realizado não é aquele que vive em função de conquistas e sim o que valoriza todas aquelas que já possui.
Às vezes sou complexa e até mesmo incoerente: Choro por nada, fico zangada quando tudo está bem ou calma diante de um pequeno caos particular. Sinto-me sozinha apesar da multidão e, outras vezes, eu sou a multidão; bastar-se é questão de solidez emocional. Um tanto dramático? Também sou assim algumas vezes (ser a vítima ao invés do carrasco é sempre muito sedutor). Sou como ninguém mais quando sou como todo o mundo; querer ser igual pode nos tornar diferentes. Não sei quem sou, mas sei que essa desordem é a minha ordem e que essa incoerência já faz parte de mim.
Destino Trocado, Sinfonia.
Marcele Cambeses.
Marcele Cambeses.












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